Ele já estava velho. Não sorria. Ou quase não sorria. Seu único momento de felicidade, se é que se pode chamar de felicidade um pequeno sorriso, era quando se sentava em frente de casa para assistir ao pôr-do-sol. Desde a morte da mulher há cinco anos, só isso lhe dava algum prazer. Sentava-se na cadeira de balanço as cinco tarde, e só saía quando o último facho de luz atirada pelo sol desaparecia por completo. Era assim. Mas em meados de janeiro ou fevereiro, não lembro bem, um burburinho se armou no terreno baldio em frente. Tapumes, tijolos, areia, cimento. Barulho. Muito barulho. E aos poucos foi surgindo no caminho uma imensa torre residencial. O velho não resmungou. Se quer expressou qualquer indignação. Limitou-se a levantar da cadeira e ir em direção ao armário da cozinha onde guardava seu revolver 38. Hoje, os moradores da torre desfrutam do melhor pôr-do-sol da cidade, mas são poucas as vezes que dão uma espiada pela janela. A felicidade para eles é uma coisa muito mais complexa.
24 de Dezembro de 2008
O buraco
Eu estava perto de conseguir, mas a festa estava chegando ao fim. Não sabia o que queriam de mim. Saí correndo na busca de carona para o fim do mundo. O guarda que passava me multou por excesso de velocidade. Mas eu estava a pé! O que ele estava pensando? Continuei correndo. Ninguém parava para me ajudar. Meus cabelos estavam um pouco bagunçados, mas não creio que a minha aparência os impedia de exercer a solidariedade. Eu estava tão perto de conseguir. Por que corri antes do fim? Desatento na louca corrida, não vi o buraco logo em frente. Caí. Não sabia o que eles queriam de mim, e ainda não sei. Mas finalmente cheguei ao fim. No buraco encontrei o que não procurava, mas serviu de consolo.
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10 de Dezembro de 2008
Mesa posta para a pobreza
Mesa posta. Garfos tortos. Eu os odeio. Maldita pessoa que faz isso. Com que intuito? Me diga? Servido da mais pobre refeição que uma pessoa possa ter, faço o desjejum. Sílabas são trocadas com as pessoas que me acompanham. Se quer sei quem me acompanha. Hã. Hum. Aham. Quanta baboseira em uma hora imprópria. Por que não se concentram no que estão fazendo? Concentrem-se no feijão e arroz. Concentrem-se no gosto amargo com que desce, seguido de uma ânsia de vomito. A pobreza me da ânsia de vomito. Mas o que fazer? Os números sorteados nunca batem com os da minha cartela.
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